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9 de Abril de 2020

República da Ignorância

O retrocesso consentido pela necessidade de validação do voto e a oposição realizada pela simples necessidade de se opor.

Magno dos Anjos, Advogado
Publicado por Magno dos Anjos
há 10 meses


A necessidade de convalidar a escolha feita na campanha presidencial beira o absurdo, levando a complacência pelo atual desgoverno, ocorrendo uma validação de todos atos do Presidente da República – PR. Concomitante a isso, nota-se também a necessidade de se opor ao governo e a qualquer política pública apresentada, apenas e tão somente por não ter depositado seu voto no atual PR, em ambos os casos sem nenhum senso crítico e justificativas devidamente fundamentadas.

A questão aqui não é partidária, tal texto não tem a pretensão em defender político A ou B, da mesma forma algum partido. Tal apontamento se faz necessário, porque estamos passando por um período onde qualquer comentário realizado se recebe rótulo de algo. Se a crítica é direcionada ao atual governo, logo é taxado de comunista, petralha, cubano ou algo do tipo. Do mesmo modo, quando se realiza qualquer comentário contra o governo passado se recebe adjetivos de bolsominion, extremista, racista, homofóbico entre outros.

A diversidade de opiniões e ideologias são inerentes a democracia, desse modo, não é prudente defender lado certo e outro errado, pois isto não contribui para o progresso do Estado e da sociedade, dado que, assim sendo, haverá apenas a preocupação e a necessidade em ambos os lados de provar que seu ideal é o correto e justo, não focando no primordial e essencial, nas melhores condições de vida e desenvolvimento sustentável onde todos ganham. Logo o objetivo não é padronizar e sim somar.

Ao padronizar, se vivencia uma ditadura ideológica. Onde não é permitido qualquer questionamento sobre a “verdade” imposta e predominante, seja qual for o ideal. Tal cenário já vivenciado em nossa história, quando a religião predominava os ideais e a figura da igreja se confundia com o Estado, causando enormes barbaridades e uma estagnação ao progresso científico tudo em nome da fé.

Embora tais fatos históricos sejam de conhecimentos de todos, bem como repudiados pela maioria esmagadora, se prolifera o discurso de que o país precisa voltar aos tempos da ditadura militar, precisa de um ministro da suprema corte evangélico, pois tudo isso se faz indispensável, conforme o senso comum, um mal necessário para manter o país nos trilhos.

Problemas complexos são atribuídas soluções simplórias, sem um debate mais amplo e fundamentado. Pelo contrário, a orientação é atribuir descrédito aos estudos científicos seja qual for a área, saúde, segurança, educação ou economia, etc. Não que esteja querendo burocratizar a solução de problemas estruturais do país. A crítica aqui, se dá pela proliferação de políticas adotadas pelo achismo, justificando tais propostas com discurso baseado no senso comum, ignorando estudos de casos dando descréditos aos institutos de pesquisas.

A exemplo, note a proposta de alteração do Código de Trânsito Brasileiro - CTB, algo bizarro em tempos atuais. Um PR apresentar proposta em que desobriga a utilização das “cadeirinhas”, equipamento de segurança veicular para transporte de recém-nascidos e crianças, pela simples justificativa de que o pai que deve escolher o que é melhor para seu filho, um total desconhecimento da realidade do país. Bem como, desobrigar o exame toxicológico aos motoristas profissionais, um retrocesso sem limites e do mesmo modo, um total desconhecimento da realidade das estradas brasileiras.

Ao dar entrevista sobre a proposta apresentada, o ilustre PR proclama que seu objetivo é acabar com a indústria das multas, colocando o Estado como vilão em multar quem infringiu a lei. Ora, se o motorista não andar acima da velocidade da via e não cometer alguma irregularidade não será notificado, então qual a lógica do discurso da indústria das multas? Bizarro em ver seus apoiadores relativizando tais pontos alterados, compartilhando do mesmo discurso da indústria das multas, sem nenhum senso crítico desconsiderando o histórico de acidentes causados pela imprudência e desrespeitos as normas de trânsito e pesquisas sérias que apontam as principais causas de acidente de trânsito.

Outro ponto relevante se dá pela oposição realizada a reforma da previdência, uma vez que, uma grande parcela dos que se diz contra a reforma não sabem justificar de forma fundamentada os motivos que determina seu posicionamento. Oposição simplesmente por oposição, apenas para se manter contra o atual governo. Não defendendo a proposta apresentada, mas instigando o diálogo com a prevalência da racionalidade sem deixar a paixão tomar de conta do debate, pois evidente que o país necessita de uma reforma da previdência, como de tantas outras.

Diante o atual cenário, poderíamos pontuar cada proposta de alteração no ordenamento jurídico brasileiro, debatendo sua efetividade para o progresso do país, realizando questionamentos e ponderações com foco sempre no que será de fato efetivo ao crescimento da sociedade. Entretanto, o propósito aqui é questionar qual a necessidade de apoiar cegamente uma política, sem nenhum senso crítico, apenas para validar suas escolhas passadas. Da mesma forma, questionar a figura do opositor que se mantém a todo momento contra o governo, apenas pela necessidade de ser contra a qualquer proposta apresentada.

Evidencia uma necessidade em manter-se fiel a um ideal, ao ponto de apoiar o absurdo mesmo que prejudicial para coletividade, isso para ambos os lados. Ocorrendo uma divisão onde se estabelece mocinhos e vilões, determinando que todo pensamento contrário ao que se defende como inimigo que deve ser combatido.

O objetivo de ambos os lados, pelo menos no discurso, é a construção de uma sociedade mais justa, um país forte economicamente, com a redução dos níveis de violência com avanço da educação e saúde. Então porque não aplicar o que já deu certo de ambos os lados, procurando sempre um meio termo sem extremismos, com objetivo apenas na evolução do país e não na perpetuação de ideologia X, Y e Z.

Porque, independente do lado que está, não realiza-se um senso crítico sobre as propostas apresentadas se de fato serão boas para sociedade. Críticas essas construtivas com objetivo de encontrar uma solução e não apenas obstar o processo por simplesmente se intitular contra, pois o PR eleito governa para todos e não para apenas seus apoiadores, lembrando que, caso faça um bom governo todos serão beneficiados, assim como caso faça um mal governo, todos serão prejudicados independentemente da sua classe social.

A ignorância acarreta a uma subveniência ideológica deliberada, independente de qual lado você se intitula pertencer. Pois sempre defenderá a existência de uma força do bem contra o mal, onde sempre pertencerá sempre o lado dos mocinhos (óbvio). Entrando como diz na informática em loop, um círculo vicioso onde não se chega a lugar algum, repetindo sempre os mesmos discursos e cometendo os mesmos erros.

Vivemos na República da Ignorância, pelo empobrecimento do debate, do diálogo, com o objetivo de sempre querer provar que está certo e o outro lado errado, por se achar detentores da verdade plena, por não aprender com o passado, repetir os mesmo erros e os mesmos discursos. Por não compreender que querer um pais melhor, não significa endeusar pessoas nomeando personagens como heróis.

Enquanto não entendermos o real objetivo, permaneceremos em loop¸ vivendo os mesmos problemas apenas com personagens diferentes, porém com os mesmos discursos. Note que o discurso do combate ao comunista em defesa dos valores da família é por volta da década de 60 conjuntamente com o discurso antiamericano para não se curvar ao capitalismo e o liberalismo.

Ao passar dos anos, notórios são os avanços e amadurecimento do país como o fortalecimento de vários órgão e poderes do Estado, porém se nota novamente os mesmos discursos vividos no passado com uma divisão ideológica acentuada, onde não há tolerância em aceitar o diferente. Evidenciando a necessidade de impor uma verdade absoluta, sustentando isso como o caminho necessário para obter a “salvação”, onde os fins justificam os meios.

Será que essa divisão ideológica está contribuindo de forma efetiva para o progresso do país?

Magno Souza dos Anjos. Barreiras-BA, 11 de junho de 2019.

2 Comentários

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"por se achar detentores da verdade plena"
Talvez nos falte humildades para reconhecer os erros. continuar lendo

Exatamente isso. Não se vislumbra o reconhecimento dos erros cometidos, mas sim uma preocupação em atenuar tais deslizes em ambos os lados. continuar lendo